quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O não-sentir.


Uma coisa é certa: Pior do que a própria dor é a angústia de não sentir nada. Nada é uma palavra muito profunda, muito impossível, que nesse caso deveria soar como "nada do que deveria" ou "tão pouco que me é desprezível". Quando se percebe que o que sente não é suficiente, que seu coração deveria se libertar mais um pouco, afundar mais um pouco no desconhecido? Isso acontece quando vemos nos olhos dos outros um brilho que não há no seu, que tinha o dever de estar! Ele tinha. Quando sentimos que aquilo já não importa mais, que você já não liga... Não consegue nem ao menos sentir ódio por isso. Ódio pelo seu coração não responder como deveria, pelas suas mãos não gelarem como deveriam, pelos seus pés e pela sua barriga não agir como é de praxe, enfim, pelo seu corpo inteiro não vibrar por nenhum sentimento. Por ele apenas permanecer vazio e sem sabor. Não estou me referindo apenas ao amor - que com certeza é quase se não o principal sentimento a quem me refiro - estou falando também de sentimentos base, como: raiva, preocupação. A falta-de-raiva é notada quando acontece algo que você sabe que deveria matar alguém, bater em alguém ou falar algo, mas, você não o faz. Não por medo ou covardia. Simplesmente porque você já não vê como necessário, você não liga mais, não se preocupa mais... Mesmo sabendo que era necessário essa sua raiva pra mudar algo, mas, isso não acontece. Porque você simplesmente não consegue. No caso da falta-de-amor, é bem simples. É quando alguém consegue te amar, consegue querer você por perto e você não deseja o mesmo. É a melhor pessoa do mundo e ela está nas suas mãos e você não a quer. Não por um ou outro motivo e sim porque você só não consegue querer. Só isso. É quando você vê aquele seu amigo indo pra um lado errado ou apenas se afastando de você e não faz nada. Porque você já tentou tantas vezes e não conseguiu, não é? E agora já não importa tanto, já não faz diferença. Desistir das coisas não é o melhor, nunca. Mas não consegue. Seu corpo já não sente forças pra seguir lutando e então sem ao menos esperar uma decisão sua... ele desiste. Ele para. Ele deixa de sentir, só pra que essa escolha de querer ou não, não fique mais nas suas mãos.
Junto com isso vem aquela angústia. Aquela de saber que a culpa é toda sua, de não entender o porque disso. Porque você sabe que as chances daquilo dar certo ou mudar dependiam de você. Mas, não dá pra fingir algo que não é. Só piora as coisas, só piora tudo. É horrível fechar os olhos e conseguir pensar horas do dia sobre isso, que é quando você fica se perguntando porque isso não acontece. Dói. Dói mais do que a própria dor, porque tem futuro e outras pessoas envolvidas. Acredite se quiser, mas, eu sou uma pessoa que me preocupo demais com o futuro e com outras pessoas. Sentir dor diretamente é bem mais fácil, porque você sabe o porque, sabe o por quem e sabe que isso vai passar. A dor é só sua, só quem sente é você e pode ser feito várias coisas para mudar isso. A sua dor não atrapalha a vida dos outros, não magoa os outros. Ela só atrapalha a sua e só machuca você - diretamente -. E quando o problema é contigo é bem mais fácil esconde-lo ou cura-lo mesmo que momentaneamente, porque só você sabe como fazer isso. Mexer com a vida dos outros é bem mais complicado. Sentir dor, sentir-se machucado ou magoado por outra pessoa é como estar dentro de um carro sozinho e você não tem o controle, quem dirige é o que sente, mas, só você está dentro do veículo e se algo acontecer, só irá acontecer com você e não tem culpa. Já quando o não-sentir acontece, você está em um carro onde a pessoa que será influenciada pela sua falta de sentimentos estará nele também e quem dirige é você, a culpa será toda sua se algo acontecer. Aquela angustia e culpa fica com você, não tem o que fazer. Acaba o machucando porque não pode não fazer isso, mas a culpa é o que consome tudo.
Na verdade, tudo isso é um paradoxo. Porque não-sentir envolve sentir outras coisas. Não sentir o necessário, acho que esse seria o nome. Enfim... Quando isso acabar, saberemos se foi melhor assim. Ou não.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Catavento. (Cap V - Só isso?)

Sexta-feira a noite e eu encolhida no meu sofá enquanto assistia um filme qualquer de qual nem lembrava o nome. Fazia exatos 10 dias que eu sai da minha antiga casa e que o Phillip saiu da minha vida, nesses 10 dias eu não havia cruzado nem uma só vez com ele pela rua, nem pelo café… nem por lugar nenhum, na verdade. Era estranho como tudo isso não me afetava tanto como naquela primeira noite, estranho como a dor ia diminuindo com o tempo e me fazia pensar que ela ia realmente desaparecer um dia. Ah. Uma coisa que eu devo acrescentar é que o provavel responsável pela falta de dor ou diminuição da dor foi o Peter… ele tem sido mesmo anjinho, me liga todos os dias e aparece aqui quase todos também. Eu não tinha noção de quanto ele podia ser agradável, na verdade, eu tinha noção… só não sabia ao certo.
Odeio ficar pensando sobre a minha vida e essas coisas, tudo isso só faz sentir-me mais inútil e frágil. Liguei pra Julie e pedi pra que me entretesse com algum assunto fútil que ela é tão capaz de criar.
- Ué, Pet não está aí? – Sorri maliciosamente.
- Não, Jul. Ele também não ligou hoje, não o culpo de querer fazer algo mais interessante do que ouvir como foi o meu dia em plena sexta a noite. – Continuei – Enfim, suas pertubações a parte, nos encontramos daqui a meia hora, ok?
Desliguei o telefone pra me certificar que não teria que ouvir mais nenhuma palavra dela sobre Peter, já não bastava a confusão que a minha mente fazia as vezes sobre ele? Afinal, não nos confundimos com nossos amigos, não é mesmo? Isso não é uma coisa normal de acontecer. Talvez por estar sensível e magoada. Ou por ele ser tão gentil, tão útil e… Nossa! tão lindo.
Peguei o meu vestido roxo dentro da caixa de algumas roupas que ainda não tive tempo de colocar no armário, corri para o banheiro e em alguns minutos já estava vestida. Sapatos pretos com detalhes em camurça, muito creme hidratante e muito rimel. Dentro de alguns instantes estava pronta e saindo de casa em direção a uma espécie de Pubs daqueles que a gente encontra em Londres e que nem parecia estar dentro de Nova York.
Julie ainda não estava lá, então resolvi sentar no bar para pegar uma mesa só quando ela chegar. Eu olhava para porta com alguma frequência esperando ver alguém conhecido, tentando não me sentir tão deslocada naquele lugar, já que fazia tanto tempo que eu não saia sozinha e estava tão insegura! Fechei os olhos e tentei consertar o rímel que parecia ter borrado e quando abro os olhos vejo um homem sentado bem na minha frente, tentei ajeitar a visão para identificar quem era. Era Peter! Nesse momento uma felicidade instantanea invadiu a minha barriga, os meus olhos… a mim. Não sei dizer se foi só por ser alguem conhecido ou porque não havia trocado palavras com ele as últimas 24hrs e o ver me deixou realmente feliz. Ah, não sei, só uma palavra para tudo isso: Confusão.
- Posso dizer oi ou você prefere ficar sozinha com os seus pensamentos? – Olhou diretamente em meus olhos e levantou a sombrancelha sorrindo ardentemente, tão atraente.
- Oi. – Foi só o que eu pude dizer e eu não sei porque.
Ele levantou e veio beijar a minha testa e seu peito ficou tão perto de mim que pude sentir o seu coração bater e bater. Quando sentou no banco fez o pedido de uma bebida e virou-se pra mim sorrindo.
- Estava com saudade. – Segurando minha mão direita com firmeza ele continuou – Eu realmente estava com saudade.
- Isso é tão estranho. – Eu disse.
- O que é estranho? Não posso sentir saudade de você? – Ele pausou. – Não entendo.
- Não, não é isso. – Eu voltei a olhar pra frente. – Estranho é como estamos ligados esses ultimos dias. – Continuei. – Só tenho que agradecer a você.
- Se você disser a palavra agradecer mais uma vez, eu juro que não faço mais nada. – Eu sorri junto com ele enquanto ele dizia isso com um tom de brincadeira e ele continuou – Nao é pra agradecer, eu faço isso porque gosto de você.
Eu realmente esperei um “Eu gosto de você porque você é minha amiga” mas não ouvi, e eu realmente não sei se era mesmo isso que eu queria ouvir. Ficar fitando aqueles olhos azuis penetrantes só fez me deixar mais confusa, mais cansada de pensar em o que eu estou sentindo. DROGA, EU NÃO CONSIGO SABER O QUE SINTO. Eu pensava isso enquanto analisava cada canto do seu rosto, eu estava tão perto que podia ver cada minúsculo resto de sua barba mal-feita e isso me constrangia, essa proximidade me fazia corar. Acredito que seja só uma gratidão imensa por tudo isso… ou não. É, é só isso.
Esse foi o momento em que Julie enconstou seus dedos nas minhas costas e fez com que eu me enrigecesse em um estalo e então virei-me pra ela e sorri com cara de quem estava fazendo algo errado. E eu não estava. Não é mesmo? Só estava olhando amigavelmente e sem motivos para um antigo amigo, só isso. Só isso?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Dias não-escritos.

Você está sentado em algum lugar que não é a sua casa, em uma noite que não é a sua noite, com pessoas que não são você, que não sentem o que roda na sua barriga. Quando você de repente percebe que sua vida não está caminhando do jeito certo, que você tem errado, e as coisas já não são mais como você pensava que fosse. Seus amigos estão um pouco mais longe, os de perto agora são outros. A vida que você estava vendo não era a sua, ou melhor, não era o que ela é de verdade, era apenas uma imagem mais bonita dela que você olhava superficialmente e acreditava. Sua vida na verdade tem passado incolor, insípida e inodora. Não há verde nela. Os dias passam, você ri, você brinca, você chora, você vive, porém, quando está sozinho que é o momento que você é só você e mais ninguém, você vê. Você vê que sente falta de pessoas, que tem trilhões de coisas que sua mãe não sabe sobre você, que ninguém sabe sobre você, que algumas coisas que você fez.. não fazem muito sentido.
Esse é o momento que você analisa cada instante que passou dos seus últimos insípidos dias, procurando a solução, procurando em que diabos esconderam-se as cores das suas tardes. 


Tudo bem, nem sempre tudo será tão bom, tão verde, tão agitado. Tudo bem. E você vai continuar vivendo, continuar olhando para as estrelas perguntando quando tudo vai se tornar mágico, você vai continuar sorrindo para a sua amiga e esperar um abraço. Você vai continuar falando com aquele/a garoto/a esperando que ele olhe pra você e diga que vai estar com você. Você vai continuar explodindo com a sua mãe sem motivo ou pode ser que isso não aconteça. Pode ser que tudo não se transforme de uma hora pra outra, pode ser que para que isso aconteça você tenha que respirar fundo seguidas vezes e parar de olhar paras estrelas e focar somente na lua, segurando pra não deixar que transborde dos seus olhos o que está enchendo o seu coração, a sua barriga ou até os seus pés... Suas lágrimas podem escorrer nas suas mãos que jogam tudo no chão durante uma crise, ou nos seus braços que se apertam sobre o seu peito, elas podem escorrer de diversos jeitos, com diversos jeitos, podem o faze-lo mesmo que seus olhos permaneçam secos. Por um tempo pode ser que tudo seja assim, mas, um  dia, você verá que sorrir quando não quer pode valer a pena, muitas coisas podem valer. Você verá as coisas mudarem, as cores voltarem... só precisa acreditar.


"Quando tá escuro e ninguém te ouve quando chega a noite e você pode chorar. Há uma luz no túnel dos desesperados. Há um cais de porto pra quem precisa chegar. Eu tô na lanterna dos afogados, eu tô te esperando, vê se não vai demorar.
Uma noite longa pra uma vida curta, mas já não me importa basta poder te ajudar e são tantas marcas que já fazem parte do que eu sou agora,mas ainda sei me virar."

sábado, 23 de outubro de 2010

Catavento. (Cap IV - De volta a vida real.)

Sentados no tapete da sala nós comemos em silêncio, estava uma delicia! E pelo visto não era só eu que estava com fome, o Pet parece também estar, devorando tudo de um jeito… que deixa seus maxilares maiores… mais bonitos.
- Vai ficar aí me observando comer, ou vai me ajudar a levar isso pra cozinha, maluca? – Ele diz já de pé e com uma das mãos esticadas pra me ajudar a levantar e a outra com os nossos pratos sujos. – Ou! Tá me ouvindo? – Ele diz levantando as sobrancelhas de um modo que só ele sabe fazer, que desde que nos conhecemos eu batizei essa cara dele de: cara do pet. Original demais!
- Hã? Claro né! – Digo isso já chegando na cozinha e começando a lavar os pratos.
Enquanto lavo os pratos, o Pet fica sentado no balcão olhando pra mim com aqueles olhos azuis de vigia, não sei o que pensar, nunca corei com coisas que o Peter faz tantas vezes em um único dia. É estranho isso! Será que ele pensa em ir embora? Não que eu queira que ele fique, mas… é só uma duvida.
- Acho que vou indo né? Nos vemos amanhã, vizinha? – Ele diz isso já envolvendo os seus braços envolta de mim e soltando todos os seus sorrisos, vejo que ele deixa suas mãos descansarem em minha cintura. Será que ele esqueceu elas aí? Hm.
- Já vai então? – Em poucos passos estamos na sala, eu abro a porta e ele se vira pra sair, e eu permaneço com a porta aberta talvez esperando ele sair do meu campo de visão.
- Amb? – Ele se vira e continua – Só queria que você ficasse sabendo, que eu estou aqui. Não importa pra que, eu estou mesmo aqui. Pode me ligar qualquer hora dessas, se quiser compania ou sei lá – Ele sorri. – Consertar alguma coisa.
- Você sempre esteve. – Eu respondo o enchendo de olhares agradecidos.
- Não, agora eu estou mesmo aqui. Prontinho. – Ele vem na minha direção. – Pra qualquer coisa. – Depois de dizer isso ele me dá um beijo na bochecha bem rapido e desce as escadas chacoalhando os cabelos.
Acordei atrasada de novo, são 7:10 e eu preciso estar na Bells às 8hrs. Merda! Merda! Merda! Nunca me arrumei tão rápido, desço as escadas passando as mãos pelos cabelos lavados, tentando coloca-los no lugar certo. Ando pelas ruas apressada, sem ao menos observar a travessia das ruas.
- Amb! Ambeeeeer! - Ouço gritarem o meu nome, mas, não sei de onde vem esse som, já estou em frente a porta dourada da Bells e passo os olhos por todo meu campo de visão, pra ver se acho alguém. Até que vejo Mia. Mia era uma estagiária da Bells, que sempre me dava a impressão que estava me seguindo. O sonho da vida dela era ser jornalista de lá, como eu. Ela é uma menina desajeitada, sempre cheia de pastas nas mãos e sapatilhas nos pés, não posso dizer que se veste mal, mas... para ser uma jornalista da Bells, tem que ser tudo e mais um pouco. Só lhe desejo boa sorte.
- Trouxe fotos incríveis da Charllote Ryo, você vai adorar! Quer ver agora, ou... - Ela para, talvez pensando se eu estava mesmo a ouvindo, já que não parei e continuei entrando no prédio. - Tudo bem, Amber? Quer dizer... você tá meio... - Ela continua. - Tudo bem?
- Ah, depois conversamos melhor, vai pra sua mesa, que depois a gente se fala, tudo bem? - Tentei não ser grossa, mas, seus olhos cairam e eu me senti um pouco culpada por isso. Gritos interrompem meus pensamentos culpados, e eu me encolho na cadeira. Gritos a essa hora da manhã. Parece que alguém está de mal humor hoje. Bem, percebo que estou de volta a rotina de sempre... de volta a vida.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Catavento. (Cap III -

Abro meus olhos e tudo está embaçado, espere aí, eu dormi mesmo, por quanto tempo eu dormi? Ai, meu Deus. Vejo que eu já não estou mais no balcão da cozinha e sim no sofá da minha nova casa, espere espere, o que o meu sofá está fazendo na minha nova casa e não na velha casa? Tá, agora tudo está girando, será que eu fui dopada? ou estou sonhando? tá tá, tá muito confuso.
Sento me no meu-sofá-que-está-na-casa-nova e começo a olhar por todos os lados, contorcendo a cabeça pra ver se consigo achar uma explicação pra isso, até antes de eu dormir a casa estava vazia e agora tudo meu está aqui. Ouço a voz do Pet na sala e então vou até lá, ele já não está mais com a blusa cinza que estava antes, agora ele está sem ela e a carrega em seus ombros, ainda está com a mesma calça, então eu não posso ter dormido mais que algumas horas. Ele diz algo que eu não consigo ouvir para um senhor que está na porta do apartamento, um senhor com suor descendo no rosto e uma cara de quem não é simpático.
- OK, brigadão! – Ele diz fechando a porta e virando se pra mim. – Amb? não sabia que tinha acordado. – Ele deixa um sorriso imenso invadir o seu rosto suado, enquanto limpa o suor com a palma das mãos.
- É, mas… o quê? – Eu ainda estou sonolenta. – O que aconteceu? Como essas coisas vieram pra cá? – Meus olhos invadem os dele procurando alguma explicação. Será que ele trouxe tudo pra cá em seus próprios braços musculosos? Ah, improvável… ele tem musculos, mas, não tantos.
- Ah, isso? – Despara em rir. – Mágica. – Continua a rir, e me faz soltar um sorriso, só porque ele está sorrindo com uma cara cínica, como se esperasse que eu realmente acredite no que ele disse.
- Porque será que eu não desconfiei? – Falo tentando soar irônica, mas, eu sempre tenho a impressão que eu não sei ser irônica. – Tá, agora diz o que você fez!
- Então… – Ele diz enquanto vem na minha direção – Eu achei que você ia se estressar demais tentando colocar tudo no lugar, daí eu resolvi fazer isso pra você. - Agora ele usa os dedos para tirar um fio de cabelo meu que está grudado em minha testa, e deixa os seus dedos repousando nas minhas bochechas que agora estão corando.
- Obrigado. – Digo enquanto sento no tapete da sala, que está esticado impecávelmente. Que cuidadoso! – Você sabe que não precisava, eu poderia ter feito sozinha.
- É claro. – Ele diz isso cheio de sarcasmo, será que ele acha que eu sou tão inútil que não posso nem fazer uma mudança sozinha? pff! – Hmm, a Claire ligou e a Julie também, eu disse que estava tudo bem. – Ele lança seus olhos azuis para mim esperando que eu confirme que está tudo bem, eu balanço a cabeça confirmando, é, parece que tudo estava ficando melhor mesmo. – Achei estranho porque elas disseram que desde… o acontecido você não telefonou pra elas.
- É, eu tava tentando esclarecer as coisas na minha cabeça antes de esclarecer as coisas pra alguem. – Eu digo isso catando uma almofada que está perto de mim, e a abraço. – O que vamos fazer agora? acho que estou com fome.
- Que tal, comida indiana? – Ele solta um sorriso de eu-imaginei-que-você-estivesse-com-fome, é, ele tem esse sorriso, que estranho! – Vai chegar daqui a pouco.
- Comida indiana? – Começo a imaginar a comida, e minha boca se enche de água. – Claro! Claro!
- Posso tomar banho aqui? – Ele fala isso escondendo os lábios. – Se não se importa, é porque lá em casa está sem água quente e imagino que você não queira que eu morra de frio, nem nada. – E lá está ele sorrindo de novo.
- Não, tá tudo bem, pode ir. Eu realmente não quero o meu agente de mudanças morto por aí, né. Ao menos que eu tenha matado ele, aí tudo bem. – Falo séria, mas ele não responde. Apenas anda em direção ao banheiro, com uma troucha de roupas em mãos.
Começo a procurar meu celular freneticamente, não consigo me lembrar onde botei. Onde? onde? Parece não estar em lugar nenhum, eu preciso dele, preciso ligar pra Julie e logo depois pra Claire, tá, e pra minha mãe. Vou indo em direção a porta do banheiro pra ver se o Pet me responde.
- Pet, sabe onde eu coloquei o meu celular? – Eu falo esperando para que seja mais alto que a ducha do chuveiro. – PETER! PETER! Cadê a merda do meu celular? – Ele não responde, mas, ouço o chuveiro se calar. Ele abre a porta e vejo que ainda está de toalha, e molhado, mas, ele só abre um pouco da porta.
- O quê? – Ele diz com uma cara de confuso.
- O meu celular. – Eu digo sentindo o meu sangue ir para as minhas bochechas que estão corando, não sei porquê.
- Hm, já viu se tá no balcão da cozinha? – Ele sorri tentando ser simpático com a pessoa que atrapalhou o banho dele, e bate a porta.
É, está no balcão da cozinha, que esperta, não? Disco o número de Julie e espero na linha por um tempo, tenho a impressão que tocou 100 mil vezes e nada, aí desligo. Agora o número de Clarie.
- Am! Am! Como você está? – Ela diz, antes mesmo que eu possa dizer alô, ouço barulhos estranhos que é provavel que venham dos filhos dela. Ah, Clarie é a única das minhas amigas que é casada, daí sempre temos a impressão que ela não tem tempo para nós.
- Só liguei pra dizer que estou viva, amiga. – Respondo. – É que eu to esperando comida aqui e o Pet está no banho, daí não quero correr o risco de não ouvir e eu…
- O Pet? – Ela me interrompe, muito mal educadamente. – Ele está com você? – Ela sorri maldosa.
- Não. – Respondo rápido. – Quer dizer, está aqui, mas, não está comigo, entendeu? Ele tá só me ajudando com a casa nova e com tudo. Sabe como é?
- Não sei não. – Ela ri ainda. – Tudo bem, tudo bem. Vou desligar, não quero incomodar. – E desliga.
Ah, o que ela queria dizer com todas aquelas risadas? Argh! sempre ela mesmo. Sempre.
- A comida chegou. – O Pet diz invadindo a cozinha, com os cabelos negros muito molhados e ainda sem camisa, agora com uma outra calça. Seus musculos estão parecendo maiores, dever ser porque ainda há água neles. Nossa!

sábado, 18 de setembro de 2010

Catavento. (Cap II - Vida nova, casa nova.)

Estou dentro da banheira tentando processar as ideias, tentando pensar, já faz mais de uma hora e nada. Resolvo então sair de casa e ir procurar um lugar pra morar, não quero ter que olhar para as coisas que antes eu dividira com Phillip e que agora não serão mais nossas, apenas minhas, já que ele disse que tudo o que queria levar ele já havia pego (isto é, duas malas e a jaqueta enrolada em seus braços, e com certeza sua carteira estufando de notas). Em alguns minutos eu já estava pronta, parada no hall procurando minhas chaves quando o telefone toca.
- Hm, Amber? – Ouço a voz do Peter do outro lado da linha, provavelmente ligou pra ver se eu ainda estou viva.
 – Oi, Peter, fala. – Percebo que ele suspira como quem está aliviado por eu não ter cortado os meus pulsos ainda, de fato ele me conhece bem, pois, eu pensei nisso pela manhã enquanto ainda estava na cama, mas, era certo que eu não ia realmente fazê-lo.
 – Então, imagino que você esteja precisando, você sabe, de um lugar pra morar.
 – Sim sim, isso mesmo, o que é? sabe de algum lugar?
 – Sei sim, Amber, aqui na minha rua tem um apartamento livre, acho que por enquanto seria bom pra você.
- Ah, claro, então irei passar aí para ver como que fica isso hoje mesmo, quero dizer, agora mesmo, estava mesmo saindo de casa.
– Tudo bem, já tomou café? que tal daqui a meia hora na Starbucks, Amb?
 – Ok, até lá.
Assim que saio do elevador, sinto que os funcionários da recepção continuam me olhando, talvez pela cena que eu fiz ontem, que até agora eu não consigo acreditar que eu fiz mesmo aquilo, é, aquilo de correr que nem uma louca gritando, tento afastar os pensamentos constrangedores do fim da tarde de ontem. Na porta do hotel, observo a rua, vejo que tudo está como era antes, sabe? (antes é quando o Phillip ainda me amava), vejo que o fato dele ter me abandonado, não fez com que nada mudasse lá fora, acho que foi só aqui dentro, só aqui dentro que sinto tudo fora de ordem. Começo a andar em direção a Starbucks, que fica há umas duas quadras dali e vou observando as pessoas na rua, como se fizessem parte da minha família. Falando em família, penso em fazer uma visita a eles esses dias. Uma mulher com um bebê… um cara com pressa… outra mulher com um bebê… um casal… mais gente com pressa… um casal… um casal. Nossa, quantos casais! argh. Entro na cafeteria e vejo o Peter lá sentado no balcão, olhando para mim enquanto eu invado a porta, com seus olhos azuis quase me filmando e então eu sento ao seu lado e sorrio.
- Como você está, Amb? estava preocupado em como você ia ficar depois de tudo. – Ele diz tão rápido que parece vomitar palavras que já estavam martelando em sua mente há séculos.
– Tudo bem, eu acho. – eu tento sorrir, mas, eu sei que ele não acredita, afinal, estou falando do meu melhor amigo, e ele me conhece mais do que eu mesma. – Vai ficar tudo bem.
– Ah, o apartamento, já conversei com o proprietário, acho que você pode se mudar hoje mesmo, ele deixou a chave comigo.
 – Ah, que noticia ótima. – Sorrio, de verdade dessa vez. – Vamos indo, eu quero ir lá ver. – Ele acente com a cabeça e levanta.
Carregando o meu Caramel Macchiato de sempre, que hoje estava estourando de tão quente, atravesso a porta da Starbucks com Peter vindo logo atrás de mim com o seu Brewed Coffee e sua jaqueta em suas mãos, hoje ele parecia estar mais arrumado do que o normal, uma blusa cinza e calças surradas que o deixam bem… interessante. Nós caminhamos aquelas quadras em silêncio, acredito que ele esteja com algum sentimento de pena, ou alguma coisa assim, algo tipo: “Tadinha, ela foi abandonada pelo amor da vida dela”. Ele abre a porta do prédio branco amarelado, e olha pra trás sorrindo, como se tivesse uma surpresa lá dentro, seus olhos azuis sorriam também e nesse momento eles invadiram os meus. Fui seguindo o Pete uns dois lances de escada, meus pés batiam fortes como quem tenta ter passos firmes, mas, era em vão. Por um momento pensei que fosse cair então coloquei minha mão dentro do bolso de trás da calça do Peter para me equilibrar.
- Ou, não precisa abusar de mim né? – Ele olha para trás e balança a cabeça de um jeito que faz seus cabelos negros, que ele nunca lembra de cortar, chacoalharem e sorri despreocupado.
- Ok, vou me conter, da próxima vez eu caio da escada. – Eu respondo, soltando uma risada. Então Peter vai abrindo a porta do que será a minha nova casa.
- Voilà – Ele diz fazendo biquinho e piscando. – Bem-vinda, vizinha. – Continua – Prometo trazer uma torta ou qualquer coisa dessas que os vizinhos trazem de boas vindas.
- Ah, não precisa, tenho medo dos seus dotes culinários, mon cher. – Solto uma gargalhada – mas, obrigada por isso, mesmo. Nem precisei procurar uma casa.
- Não agradeça, vamos ver o resto do ap. – Ele diz se aproximando de mim, me pegando pelo braço e me arrastando por todos os cômodos. – Vem, vem.
- Que animação, Pet! – Fico mais animada também e o sigo.
Peter passa a mão pela minha cintura e me carrega do banheiro até a cozinha, com suas mãos apertando com força o meu quadril. – Essa é a melhor parte! – Diz me colocando em cima do balcão que divide a cozinha e onde será minha sala de jantar. – Acho que o cara que morava aqui era cheff, por isso aplicou mais na cozinha.
- Eu vou adorar morar aqui, já estou me sentindo melhor. – Falo isso deitando no balcão vazio e respirando profundamente o ar da minha nova casa. Peter senta no balcão também e coloca suas mãos grandes em meu rosto. Espera, o que é isso? O QUE É ISSO? Eu levanto em um estalo e me ajeito pra ficar sentada ao seu lado. Sinto o meu rosto corar, minhas bochechas ardem.
- Calma, Amb. O que é? está com medo que eu faça algo com você? – Ele abaixa a cabeça – Só estava tentando ver você sorrindo, hoje pela manhã você parecia tão triste. Por causa daquele, aquele… – Ele levanta o rosto e se vira pra mim, deixando suas sobrancelhas ficarem franzidas. – Canalha que você ia se casar.
- Ia – Eu repito. – Ia – Recosto meu rosto nas minhas mãos, e olho ao redor do cômodo. – Minha casa. – Suspiro.
Quando fui ver, seus braços já estavam envoltos em mim, e a minha cabeça recostava em seu peito e foi quando eu apaguei.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Catavento. (Cap I - Corrida do adeus.)

- Volta aqui, Phillip! – eu disse, arfando de ódio, o sangue em minhas veias parece correr de forma que eu posso sentir ele passeando pelo meu corpo – Volta aqui, merda! – Eu digo, já desistindo de correr e me sentando em algo que parece ser um puff, mas, que eu nem me preocupei em ver o que era antes de me sentar.
Vejo que estão todos me olhando, de certo pensando em como eu era maluca ou o que me leva a correr (e gritar) por todo o térreo do Doubletree Metropolitan, desde o elevador até a porta do Hotel. Afundo o meu rosto em minhas mãos e finalmente estou pensando com calma no que acaba de acontecer, “Não temos mais nada para conversar, eu estou indo” “Pare, Amber! você vai superar!” “Não me siga, não, não temos mais nada pra falar”. As palavras parecem ecoar na minha mente, dançando de forma embaralhada e embaçada em minha cabeça, que está só dificultando que tudo pareça verdade. Tudo bem, ele foi embora, tudo bem pra mim, tudo bem. Ele está indo morar em algum lugar da cidade que não é a nossa cobertura na Lexington Avenue, talvez com outra pessoa, ele não disse. Na verdade, ele não disse nada além de “vou embora, amber” e algumas variações disso, não disse porquê ou por quem. Talvez me ache gorda demais para alguem tão bem sucedido, talvez eu tenha que arrumar um emprego melhor agora, não, espere, aonde eu vou morar? meu dinheiro é de longe suficiente pra pagar aqui. É isso mesmo, merda, aonde eu vou morar? Talvez durma no metrô durante um tempo e depois arrume um loft no Brooklyn pra morar, ah, qual é, a quem estou tentando enganar, definitivamente eu não vou dormir no metrô.
- Senhora, acho que o senhor que passou correndo aqui deixou um recado para a senhora lá na recepção. – Um homem de aparência jovem, diz interrompendo meus pensamentos desesperados.
– ah, tudo bem, obrigada. – Me levanto e vou cambaleando no salto que detona os meus pés a cada passo, parece que acabo de sair de uma caverna, sinto como se tudo doesse.
- Oi – digo para a moça que parece ocupada atrás do balcão. – Meu noivo, digo, ex noivo, hmm, deixou um recado para mim aqui, é… eu acho, tem como? é… – As palavras saem confusas depois que pronuncio a palavra ex noivo, tento me acalmar, meu coração ainda está agitado.
 – Amber? – ela diz, direcionando os seus olhos negros para me analisar.
 – Sim, eu mesma. – Sorrio, e ela entrega um papel rabiscado no que parece ser a letra de Phillip escrita com rapidez.
Amber, me desculpe sinto muito, nós conversaremos sobre tudo o que for necessário dentro de alguns dias, depois que eu voltar da Flórida. Lembre-se o que eu disse, não há nada de errado com você, eu só… irei embora agora porque não
P.s: Você pode ficar no hotel essa noite, mas, sinto que terá que procurar outro lugar em alguns dias. 
Phillip.
Poucas lágrimas escorrem dos meus olhos, enquanto dobro o papel e enfio no bolso do jeans e sigo em direção ao elevador, os números sobem no painel 11,12,13… e a única frase que eu consigo pensar claramente é que tudo irá mudar a partir de agora.
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sábado, 14 de agosto de 2010

Olhos certos.

 
Você acha que está tudo indo errado. Você não só acha, você sente que está tudo fugindo do pequeno controle que antes você via, antes você podia tomar posse dele de vez em quando, pra decidir ou escolher algo. Mas, nesse momento você vê que nada é pra você, que está tudo longe e inalcançável e tudo é tanto faz, tanto fez.
 Derrepente você vê que as coisas começam a tomar forma, derrepente você aprende que nem tudo depende de você, que decisões só suas inexistem, e que as coisas acontecem porque tem que acontecer, e que Deus é o único que sabe de tudo isso, e te vê a todo momento, e que faz tudo certinho, jamais escreve em linhas tortas, somos nós que não sabemos ler direito. Para que você veja tudo isso, foi preciso uma coisa muito pequena, uma pessoa, um olhar, as estrelas lá no céu, qualquer coisa simples. 
Quando você vê que tudo faz sentido, não há o que questionar, você sabe, você sente que está tudo bem e não falta mais nada, você se prende e quer resgatar, dependendo do que te fez ver isso, você se liga a isso, e agora quer fazer o que pode pra não perder isso. Isso que te fez ver que há um sentido, que há uma direção, que você é útil e necessária.
Agora, falando de mim, venho agradecer a pequenina pessoa Davi que fez eu desenvolver um amor pelos seus olhinhos, e por ele mesmo. A criança que me deu vontade de ir pra onde fosse pra mantê-lo seguro, que não apenas pra deixa-lo bem, não, não somente isso. Ele simplesmente me fez ver como é fácil se alegrar com coisas pequenas, como é melhor viver assim, do que sempre esperando coisas gigantes acontecerem. Me ensinou não sei como, muitas coisas, nem ele mesmo sabe disso tudo, mas, eu sei, e sei que não foi em vão, eu vejo nele uma história, uma história que é escrita com tristeza mas, nem mesmo assim ele consegue parar de sorrir. 

P.s: estou com centenas de fotos dele, do Davizinho, no flickr, inclusive essa, passe lá e dê uma olhada.*-* http://www.flickr.com/photos/gabriellephotos_/